
A primeira vez que tive um aquário foi o meu pai que o comprou, o montou e embora a partir de certo ponto tenha sido eu a tomar conta dele, nunca me preocupei verdadeiramente com a “ciência” por detrás da coisa. A beleza dos peixes e o querer que eles se mantivessem saudáveis fazia com que os cuidados básicos de manutenção (aspirar o areão e trocas parciais de água) fossem realizados com regularidade.
Já quando comprei e montei o meu próprio aquário a coisa não correu tão bem e após alguma pesquisa lá percebi porque os meus peixes pareciam tão doentes. Eu não tinha ciclado o aquário. “Ci … quê???”, foi a expressão que eu disse quando pela primeira vez esse jargão da aquariofilia me foi apresentado. E acreditem que existem alguns…
O termo ciclado usada nestas bandas refere-se ao ciclo do nitrogénio, algo tão vital nos processo biológicos mas muito pouco percetível aos nosso olhos. É o assim na natureza e é o também nos nossos aquários. Aliás, tendo em conta que os aquários são espaços fechados em que a renovação de água ocorre em percentagens muito abaixo daquilo que, normalmente, acontece na natureza, este ganha uma importância ainda maior.
Mas vamos por partes…
O que é o ciclo de azoto?
O Azoto ou Nitrogénio é um elemento químico, cujo símbolo pelo qual é designado é o N, que existe em abundância na terra, sendo o principal constituinte da nossa atmosfera mas que se encontra também em rochas, dissolvido em correntes aquáticas e nos organismos vivos. Nestes últimos desempenha papel nuclear na criação de aminoácidos e ácidos nucleicos. que servem de base a processos biológicos,
Na atmosfera o Azoto apresenta-se na sua forma não reativa (N2) que não é utilizado pelos organismos vivos. Para poder ser utilizado pelos seres vivos ele precisa ser primeiro alterado para as suas formas reativas – as mais comuns no aquarismo são o amónio (NH4+), nitritos (NO2–) e nitratos (NO3–). Para que isso aconteça é necessário a intervenção de vários tipos de bactérias. Um primeiro grupo de bactérias que realiza a fixação do Azoto e o transforma em amoníaco (NH3). um segundo grupo que transforma o amoníaco ou amónia em nitritos e um terceiro que transforma os nitritos em nitratos. Estes dois últimos grupos de bactérias são conhecidos como bactérias nitrificantes (Nitrossomas no primeiro caso e Nitrobactérias no segundo).
Para que o ciclo se complete é necessário que as formas reativas de Azoto voltem á sua forma não reativa e para desempenhar essa função existe um outro grupo de bactérias denominado de desnitrificantes.
Enquanto nas suas formas reativas, o azoto é utilizado pelas plantas e é por esta via que que entra na cadeia alimentar dos animais e é eliminado por via da respiração, por via de urina e fezes ou, em ultimo caso, por processos de decomposição orgânica.
Ok. Mas se precisamos de Azoto para viver então qual o problema?
O problema é que, apesar de essencial para a manutenção dos processos biológicos, acima de determinados níveis as formas reativas de Azoto são altamente tóxicas. São-no na atmosfera na forma de aerossóis, nos alimentos nas formas de sais e nas águas na forma iões dissolvidos.
A amónia e sobretudo o amoníaco, por possuir propriedades lipofílicas tem capacidade de penetração das membranas celulares interferindo em processo biológicos, podendo interferir nos processos de formação celular e/ou provocar cancros.
Por seu lado, os nitritos ligam-se à hemoglobina (proteínas responsáveis pelo transporte de oxigénio) interferindo com a respiração celular e provocando degeneração de órgãos e, em ultima instância, morte do organismo por anoxia. Os nitratos possuem um mecanismo em tudo semelhante aos nitritos, mas por terem uma capacidade de penetração nos organismos inferior são considerados menos tóxicos.
A definição daquilo que são os níveis considerados tóxicos para cada uma destas fontes de azoto varia muito consoante estejamos a falar de espécies diferentes e em aquariofilia isso não é diferente.
E como é que isso se aplica na aquariofilia?
Na aquariofilia os princípios gerais aplicam-se também. Aliás, por estarmos perante sistemas fechados, em aquariofilia este tipo de problemas ganha especial importância porque não existe a constante renovação do ambiente envolvente que as correntes aquáticas promovem e por isso, em substituição, ganha especial importância a troca parcial de água que o aquariofilista possa realizar.
Contudo não se pense que a simples adição de água é suficiente para assegurar este processo. Num aquário novo (aquele a que apenas adicionámos um substrato, alguma decoração e água) a presença das bactérias essenciais para que o ciclo se concretize é quase nula. E assim será até que façamos algo para lhe dar o pontapé de saída: a introdução uma fonte de azoto que dê início ao processo de colonização de um novo ecossistema por bactérias nitrificantes.
Isso pode ser conseguido de diversas formas:
- Adicionando uma fonte química de azoto (aquarista experientes advogam a adição de quantidades controladas de amoníaco numa fase inicial de estabelecimento do aquário, contudo existem formas mais seguras de alcançar os mesmos resultados);
- Adicionando pequenas quantidades de comida a um aquário vazio e deixando que, no seu processo de degradação, se transformem nas tais fontes de azoto;
- Adicionando matérias orgânicas (plantas, troncos, folhas, etc.), as quais também sofrem processos de degradação;
- Adicionando peixes ou invertebrados (preferencialmente em quantidade reduzida e de espécies reconhecidamente mais tolerantes a níveis elevados de amónia). Pelos riscos que este processo importa para a vida desses animais este será porventura o menos aconselhável.
O objetivo é, numa primeira fase, criar condições para que as bactérias Nitrossomas se estabeleçam e transformem a amónia presente no aquário em nitritos que permitirá então, na segunda fase, que as Nitrobactérias se possam também estabelecer e transformar os nitritos em nitratos. Este é um processo cuja duração poderá variar (a temperaturas mais elevadas os processos biológicos são acelerados) mas que naturalmente demorará sempre algumas semanas e no qual a consistência é importante (uma colónia de bactérias que não seja alimentada morre e o processo tem de ser reiniciado)

Este processo pode ser acelerado com recurso a soluções comerciais (nem sempre com grandes resultados pois o transporte e armazenamento de bactérias vivas são processos sensíveis, para o quais muita gente possui pouca sensibilidade) ou o auxílio de um segundo aquário já estabelecido (usando materiais que tenham estado nesse aquário, como por exemplo cerâmica porosa usada nos filtros, filtros esponjosos, plantas, madeiras, rochas ou areão). Seja num ou noutro caso o objetivo é igual: introduzir no sistema, de forma ativa, colónias das tais bactérias necessárias a que o ciclo se realize.
Não obstante podermos acelerar o processo é importante perceber que a simples inoculação com bactérias não é suficiente para garantir a estabilidade do sistema. Para isso é necessário que as mesmas se espalhem e estabeleçam, o que demorará sempre algum tempo, tempo esse que irá variar de aquário para aquário.
Se não há tanta variabilidade, como posso ter a certeza de que o meu aquário está ciclado?
A única forma de perceber se um aquário completou o seu primeiro ciclo de azoto (a partir daí o aquário, desde que estabilizado, está em constante processo de ciclagem) é controlando a forma como os níveis de amónia, nitritos e nitratos evoluem ao longo do tempo. Isso pode ser concretizado com recurso a um dos inúmeros kits de análise existentes no mercado.
O gráfico apresentado anteriormente apresenta aquilo que é expectável encontrar nessa fase de desenvolvimento do aquário. Uma fase de crescimento dos níveis de amónia que permitirá o desenvolvimento das colónias de Nitrossomas e o transformarão em nitritos. Nitritos esses que darão oportunidade a que as Nitrobactérias se estabeleçam e o transforme em nitratos. Este últimos continuarão a subir até que algo intervenha para a sua redução (através das trocas parciais de água) ou consumo (as plantas usam nitratos no seus processos metabólicos).
E depois de concretizado esse ciclo? já podemos adicionar adicionar peixes à vontade?
Num aquário estabelecido, o ciclo de azoto é um processo continuo que alimenta e é alimentado pelas colónias bacterianas. A capacidade de estas responderem a flutuações bruscas na concentração de um qualquer desses constituintes é limitada pelo numero de bactérias presentes e a sua capacidade de replicação. Nesse sentido sempre que se introduzem alterações ao um sistema, como acontece quando adicionamos peixes novos a um aquário, é expectável que se verifiquem flutuações nos valores da concentração desses produtos até que novo equilíbrio seja alcançado.
Assim, ainda que o objetivo final seja a criação de um aquário com elevado número de peixes, a sua introdução deverá ser realizada de forma gradual para evitar esses picos de amónia ou nitrito e ter em atenção que quantos mais peixes existirem num aquário (o tamanho e tipo de peixe também é um fator a ter em linha de conta mas não vou desenvolver mais por agora) mais rapidamente subirá a concentração do produto final, os nitratos, pelo que a necessidade de proceder a trocas parciais de água poderá ser mais frequente.
Por outro lado, pese embora possamos ter conseguido concluir esse processo de ciclar o aquário, não devemos dar como garantido que o mesmo se mantenha perpetuamente. Antes pelo contrário, existem inúmeros fatores que podem resultar na destruição das colónias de bactérias que tanto lutámos por desenvolver. O mais comum é adição direta de água da torneira sem cuidado de neutralizar o cloro ou cloramina nela contida (produtos com potencial desinfetante utilizados no tratamento de água potável), mas também a adição de antibióticos ou uma limpeza meticulosa de aquário podem contribuir para isso.
Este último é aliás um dos erros do aquarista mais inexperiente (e que eu também cometi). Na (boa) vontade de dar aos peixes o aquário mais imaculado possível, o aquarista acaba por remover grande parte da fauna bacteriana que promove a sua estabilidade pois as suas colónias encontram-se, primordialmente, em superfícies porosas (esponjas ou porcelana que é usada nos filtros, areão, plantas e peças decorativas) que, se fervidas, desinfetadas, ou lavadas em profundidade, são eliminadas. Por isso é uma boa prática preventiva que em vez de proceder à limpeza de todos estes componente ao mesmo tempo o façamos em momentos distintos (num momento tratam-se dos aspetos visíveis do aquário mas não se toca no filtro, noutro trata-se do filtro e deixa-se o resto intocado).
Mas estes são aspetos mais técnicos da vida de uma aquarista, com os quais nos devemos preocupar, mas não são a razão pela qual montámos o nosso aquário. Se após todo este tempo não introduziste ainda peixes no aquário, este é o momento de desfrutar dessa possibilidade, consciente contudo de que nem tudo é possível ou recomendado
